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Entre Livros, Lutas e Liberdades: O Mandato de uma Vida Inteira
Por: Carlos Lobato -


Entre Livros, Lutas e Liberdades: O Mandato de uma Vida Inteira

Discurso de Carlos Lobato durante a posse como deputado estadual no Amapá

Há momentos na vida em que o destino parece condensar décadas em um único instante. Assumir o mandato de deputado estadual do Amapá é, para mim, um desses momentos raros em que passado, presente e futuro se entrelaçam com intensidade quase sagrada.

Não chego a este parlamento apenas como homem público. Chego trazendo comigo a longa travessia de uma vida dedicada ao pensamento, à palavra e à formação humana. Minha caminhada no mundo intelectual foi construída no rigor do estudo, na inquietação da reflexão e no compromisso permanente com a compreensão crítica da realidade.

Fui moldado por múltiplas trincheiras do saber: no jornalismo, aprendi a perseguir a verdade possível em meio às sombras da narrativa e do poder; na psicologia, compreendi que o homem não é apenas razão, mas também memória, trauma, desejo e contradição; no direito, aproximei-me do ideal civilizatório da justiça; na sociologia, encontrei instrumentos para decifrar as engrenagens visíveis e invisíveis que organizam a sociedade.

Como educador no campo das humanidades, compreendi cedo que ensinar nunca foi apenas transmitir conteúdos. Educar é formar consciência. É despertar espírito crítico. É semear liberdade.

Karl Marx escreveu que “os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo.” Essa frase sempre me acompanhou como advertência moral. Pensar sem agir é insuficiente. Compreender sem intervir é uma forma sofisticada de omissão.

Friedrich Engels, por sua vez, lembrava que “a liberdade não consiste em uma independência sonhada em relação às leis da natureza, mas no conhecimento dessas leis e na possibilidade de fazê-las agir segundo um fim determinado.” A verdadeira liberdade, portanto, exige consciência, responsabilidade e ação.

Louis Althusser ensinou que “a história é um processo sem sujeito.” Sempre li essa reflexão como um alerta contra personalismos. Nenhum homem, por mais preparado ou bem-intencionado que seja, constrói sozinho a transformação histórica. Somos parte de forças maiores, de movimentos coletivos, de aspirações que ultrapassam o indivíduo.

Georgi Plekhanov advertia que “grandes homens são grandes porque souberam servir às necessidades de seu tempo.” Esta frase me interpela profundamente neste momento. Um mandato não vale por sua pompa institucional, mas por sua capacidade de responder às dores e às esperanças de seu tempo.

E Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, legou ao Brasil uma convicção poderosa: “Não há força capaz de deter um povo consciente de seus direitos.”

Essa é, talvez, a síntese da luta que abraço.

Sempre afirmei algo que hoje reitero com ainda mais convicção: se tive minha educação forjada sob a tutela do golpe militar de 1964, haveria de fazer o meu melhor como cidadão para que meus filhos, Eduardo e Juan, assim como os filhos das gerações deles, pudessem ser educados sob a doce reverência do Poder Civil.

Essa não é apenas uma frase de efeito. É um compromisso existencial.

Se conheci os silêncios impostos pelo autoritarismo, devo dedicar minha energia à preservação das vozes que a democracia permite florescer.

Por isso, assumo este mandato como fiador intransigente das liberdades democráticas.

Defenderei, com firmeza, o Estado de Direito, a liberdade de expressão, a independência entre os poderes e o valor civilizatório do dissenso. Democracia não é unanimidade; democracia é o direito sagrado de divergir sem que a divergência se converta em perseguição.

Agora, no exercício deste mandato, meu compromisso com o povo e com a democracia se redobra.

Aceito este novo desafio institucional com humildade, coragem e senso histórico.

Quero honrar meus pais — alicerces de minha formação moral. Quero honrar meus irmãos, companheiros de origem e memória. Quero honrar minha esposa, Natália, companheira de todas as lutas que travo no dia a dia, presença firme nos momentos de exaustão, dúvida e esperança. A ela, peço licença para abraçar também esta nova batalha — e peço que permaneça ao meu lado, como sempre esteve, porque somente assim terei minhas forças redobradas para seguir avançando. Quero honrar meus filhos, razão profunda de minhas lutas. Quero honrar cada voto, cada eleitor, cada cidadão que saiu de sua casa para confiar em mim suas utopias, seus anseios e suas esperanças.

Cada voto recebido traz consigo uma responsabilidade moral imensa.

Não recebi apenas votos.

Recebi confiança.

Recebi sonhos.

Recebi expectativas.

Recebi futuros.

E nenhum homem digno pode tratar isso com leviandade.

Sei também que ninguém atravessa sozinho as grandes jornadas da existência.

Por isso, ao iniciar esta nova caminhada, curvo-me diante da transcendência.

Peço que Deus seja meu regente, meu pai e meu amparo nesta luta.

Que Ele ilumine minhas decisões quando o caminho parecer turvo.

Que fortaleça minha coragem quando a pressão for intensa.

Que preserve minha consciência quando o poder tentar seduzir a alma.

Que jamais me permita confundir mandato com vaidade, poder com grandeza, ou autoridade com soberba.

Porque, no fim, toda missão pública só encontra legitimidade quando se converte em serviço.

Entro neste parlamento com a serenidade de quem estudou, com a coragem de quem lutou e com a fé de quem sabe que servir ao povo é uma das formas mais elevadas de honrar a própria existência.

Meu mandato não será um ponto de chegada.

Será mais uma trincheira de luta.

E lutarei — com a palavra, com a inteligência, com a firmeza moral e com a consciência histórica — para que o Amapá avance sem abrir mão da liberdade.

Porque sem democracia não há cidadania.

Sem liberdade não há dignidade.

Sem consciência não há futuro.

E sem esperança, não há povo que permaneça de pé.

E, para concluir, recorro à sabedoria imortal do Padre Antônio Vieira, mestre dos sermões e da consciência moral de nossa língua, quando nos advertia que “mais facilmente se une o que é diverso do que se conserva unido o que é igual.”

A política, em sua expressão mais nobre, não é a arte da imposição, mas a difícil arquitetura da conciliação entre diferenças, interesses e visões de mundo.

Vieira também ensinava, em seus sermões, que o verdadeiro poder só se justifica quando subordinado a uma finalidade superior: servir.

Que eu jamais me afaste dessa verdade.

Que minha voz nunca se cale diante da injustiça.

Que minha consciência jamais se curve diante da conveniência.

Que meu mandato jamais se renda à mediocridade dos pequenos interesses.

Como ensinava Vieira, “não há maior perigo que o da consciência adormecida.”

Seguirei desperto.

Desperto para servir.

Desperto para lutar.

Desperto para honrar o povo do Amapá.

Porque os mandatos passam.

Os homens passam.

O poder passa.

Mas o compromisso com a História — esse permanece.

E é diante dela, e sob o olhar de Deus, que prestarei contas de cada palavra, cada gesto e cada decisão.

Recebi votos, mas herdei utopias; assumi um mandato, mas abracei uma missão.

E, assim será, até meu último dia!

Inverno-verão de 2026.

Carlos Lobato

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