Onde o Rio Sussurra: Natureza, Discernimento e a Arte de Proteger a Paz
A 302 km de Macapá, bem na divisa entre os municípios de Amapá e Calçoene, a floresta revela um segredo: a Cachoeira Grande. E o nome não é à toa. Chegar lá é como se o mundo fizesse silêncio para deixar a natureza falar. Imagine as águas frias, cristalinas e limpas correndo sobre pedras antigas, formando corredeiras que parecem escadarias feitas pelo próprio rio. O som? É o barulho das águas batendo na pedra. Um som que lava a alma e acalma o coração. Não tem pressa. Não tem buzina. Tem tranquilidade. É o tipo de lugar onde a gente leva a própria comida em uma cesta e senta à beira da água para comer devagar. Se quiser, há alguns restaurantes rústicos e poucas pousadas por perto... mas a magia mesmo é estender a toalha no chão, acampar sob as árvores e dormir ouvindo o rio. Dá para tomar banho. Dá para pescar. Dá para caminhar descalço sentindo a pedra fria. Dá para não fazer nada, só olhar.
Como sugestão de quem ama o lugar: vá na época mais seca. É quando as corredeiras ficam ainda mais convidativas, perfeitas para um banho refrescante. A Cachoeira Grande oferece água e natureza, convidando você a mergulhar e renascer, visto que a água gelada tira o cansaço do corpo e da mente. Há espaço para armar barraca, linha para pescar e trilhas para caminhar conversando com a mata. Existem bares rústicos com cheiro de comida simples e pousadas humildes que recebem o visitante como um amigo. O lugar é lindo, meus amigos! É daqueles lugares que não gritam; eles sussurram.
E é aqui que aproveitamos para mais um diálogo agradável, pois entre as águas e as pedras você encontra o que a cidade roubou: tempo, paz e presença. A Cachoeira Grande não é só banho. É recomeço. É a floresta abraçando você e dizendo: "respira".
Arturo observa o movimento da brisa nas folhas, o barulho das águas nas pedras e, com o olhar ponderado de quem lapida um pensamento há muito tempo, diz:
— Andei repensando uma frase que bate forte no peito, mas liberta a alma: "Nem toda presença é companhia, e nem toda proximidade é afeto." Quando olhamos para a Sabedoria Sagrada e para os velhos mestres do Pórtico, vemos que ambos convergem para um mesmo ponto. A Bíblia nunca romantizou a convivência cega; ela chama isso de discernimento. É a prudência da serpente guiando a pureza da pomba.
Seni: — E como isso se aplica no dia a dia, Arturo? Às vezes me parece que amar a todos exige abrir as portas de par em par, sem critério algum...
Arturo: — Aí está o engano, Seni. Veja o exemplo do Mestre: Ele amava a multidão, mas caminhava intimamente com doze. E, entre os doze, reservava momentos de maior profundidade com apenas três. Em João, está dito que Ele não se confiava a todos porque sabia o que havia no homem. Amar a todos não significa entregar o coração a todos. O coração é como uma nascente de água cristalina num vale seco: se você não construir uma cerca respeitosa, o gado pisa, enlameia a água e ninguém mais bebe, nem você.
Ycrad: — É como o ensinamento de Provérbios e de Paulo sobre as companhias — interveio Ycrad, ajeitando a postura. — Quem caminha com os sábios torna-se sábio, mas quem se joga no meio da tolice acaba ferido. A companhia molda a mente como o oleiro molda a argila. Se você se cerca de quem só sabe colher sem nunca plantar, com o tempo o seu pomar seca.
Anicaroh: — E isso se conecta perfeitamente ao ponto estoico! — disse Anicaroh, com os olhos brilhando. — Epicteto falava sobre o Círculo de Controle. Não controlamos o caráter de quem se aproxima, mas controlamos a chave da nossa própria casa. Se alguém só busca você para usar a ponte que você construiu com esforço, essa pessoa não faz parte do seu círculo de afeto: ela é um ralo por onde sua energia escorre.
Airam: — Exatamente — concordou Airam, sorrindo com serenidade. — Marco Aurélio já nos alertava ao amanhecer que encontraríamos ingratos e arrogantes. Exigir que uma figueira dê maçãs é uma ilusão que só nos frustra. Tentar se diminuir ou "se vender" para caber no mundo do outro é como tentar podar a própria copa até virar arbusto só para não incomodar quem não sabe olhar para cima.
Nnaor: — Sêneca resumia essa dignidade com precisão — pontuou Nnaor. — A bondade que não conhece limites deixa de ser virtude e vira escravidão emocional. Dar sem esperar retorno é nobre, mas continuar entregando a quem te usa é uma crueldade contra si mesmo. A verdadeira ataraxia — a tranquilidade da alma e a ausência de perturbações mentais, um estado em que a pessoa se mantém equilibrada por dentro, mesmo diante do caos externo — é a paz de se afastar sem bater a porta, sem carregar ódio no peito, apenas ajustando a distância.
Leirbag: — A grande lição que unifica tudo isso é o filtro dos frutos e das atitudes — concluiu Leirbag, olhando para todos à mesa. — Tanto no Evangelho quanto no Estoicismo, não são as palavras bonitas que definem alguém, mas as ações cotidianas. Quando for preciso ir embora, que seja como o conselho de sacudir a poeira dos pés: com indiferença racional e amor-próprio. Afastar-se não é um ato de vingança, é um ato de preservação.
Arturo: — Perfeitamente, meu caro. Você não precisa ser útil para ser querido, nem conveniente para ser aceito. Proteger a própria paz não é egoísmo; é honrar a centelha divina e a virtude que habitam em nós.
Ali, onde as corredeiras encontram as pedras e a floresta dita o próprio ritmo, fica evidente que a natureza e a vida interior respondem às mesmas leis. Assim como as águas puras da Cachoeira Grande exigem cuidado para não serem turvadas, a nossa alma cobra o mesmo zelo com quem deixamos se aproximar. Entre o som constante do rio e as reflexões que aquecem o peito, compreende-se que a verdadeira liberdade não está em se isolar do mundo, mas em escolher com sabedoria quem senta à nossa mesa para contemplar a paisagem. Ao fechar a mochila e deixar para trás aquele pedaço de paraíso amapaense, o corpo leva a leveza do banho gelado, e a mente, uma certeza inabalável: preservar a própria paz não é fechar as portas para o amor, é simplesmente aprender a guardar a chave.
Foto:https://turismoamapa.com.br/ap/laranjal_do_jari/95/cachoeira_santo_antonio













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