No Hall da Walkíria Lima: O Som que Atravessa o Tempo
O som abafado de um piano de cauda ensaiando ao fundo preenche o hall de entrada. O grupo está reunido perto dos painéis que contam a história da instituição.
Arturo: (Olhando para a fotografia de Walkíria Ferreira Lima na parede) É fascinante pensar que em 1952 isso aqui começou com apenas 33 alunos. Trinta e três sementes. E hoje, o Amapá inteiro canta por causa desse chão.
Seni: E sabe o que é mais bonito, Arturo? A música aqui nunca foi tratada como um luxo, mas como o texto diz: "pão de casa". A professora Walkíria cruzou rios para ensinar o piano a falar amapaense. Isso não é apenas técnica; é pura intenção. Ela impregnou este lugar com uma frequência de acolhimento que dura até hoje.
Ycrad: Falando em intenção, vocês já repararam como a música é um espelho vibratório? Quando um compositor senta para escrever, ele está deixando uma assinatura espiritual na partitura. Se ele coloca amor e cura ali, a música se torna eterna. Veja o exemplo de "Imagine", do John Lennon. Os acordes são a simplicidade em pessoa, mas a mensagem de paz é tão poderosa que une o mundo inteiro.
Anicaroh: Exatamente, Ycrad. Mas como o universo é feito de dualidades, essa mesma intensidade pode ser um canal de luz ou focar em energias densas. A música é uma ferramenta de poder absurdo. Ela transporta a alma de quem escreve direto para o peito de quem escuta, sem pedir licença.
Airam: (Com os olhos brilhando) Se existe alguém que entendeu essa entrega e esse canal de luz, foi Hildegarda Von Bingen, lá no século XII. Imaginem só: uma abadessa, poetisa e médica, em uma época tão rígida, ouvindo o que ela acreditava ser a própria voz de Deus. Para ela, a música era a "Harmonia Original" que a humanidade havia esquecido. Suas composições eram literalmente o primeiro abraço dado aos enfermos no mosteiro para buscar a regeneração.
Nnaor: O mais incrível de Hildegarda é que a música dela fugia totalmente dos padrões quadrados da Idade Média. Ela usava intervalos inusitados, notas agudas que pareciam riachos subindo a montanha. Era a doçura feminina e as virtudes cantando no drama do Ordo Virtutum. Era um bálsamo sonoro focado puramente na elevação da consciência.
Leirbag: E o mais fantástico é como essa frequência original se recusa a morrer, assim como a raiz da música aqui na Walkíria Lima. Séculos depois, o Richard Souther assumiu o papel de um cavalheiro moderno. Nos álbuns Vision e Illumination, ele construiu uma ponte de cordas entre o antigo e o novo. Ele envolveu aqueles cantos gregorianos em sintetizadores e texturas eletrônicas contemporâneas.
Arturo: Mas com um cuidado crucial, não é, Leirbag? Ele não descaracterizou a obra. Ele protegeu a linha vocal a todo custo para garantir que a semente de cura plantada há mais de 800 anos por Hildegarda continuasse clara, vibrando nessa atmosfera etérea para o ouvinte moderno.
Seni: (Sorrindo, ouvindo o eco do piano no corredor) No fundo, a história de Hildegarda, o trabalho de Souther e a própria existência desta escola em Macapá dizem a mesma coisa: quando a música é feita com a alma, ela transcende o tempo, a tecnologia e o espaço. Ela não tem catraca, não tem preço. É um direito de todos nós.
À medida que as palavras de Seni silenciam e ecoam pelas paredes do hall, um breve e reverente silêncio se instala entre os sete amigos. Não é um silêncio vazio, mas aquela pausa sagrada que antecede o primeiro acorde de uma grande sinfonia.
Olhando uns para os outros, há um entendimento tácito no ar. Arturo observa os companheiros e, por um instante, percebe a poesia oculta ali mesmo, na presença deles. Seni, Ycrad, Anicaroh, Airam, Nnaor, Leirbag... nomes que trazem em si o mistério do espelho, a simetria perfeita que reflete Ines, Darcy, Horacina, Maria, Roann e Gabriel. Eles próprios são como a música: uma dualidade harmônica, onde o avesso e o direito se encontram para criar beleza.
No corredor, o ensaio ao piano cessa por um segundo, apenas para dar lugar ao som cristalino de um violão tocado por uma criança em alguma sala de aula distante. Uma nota pura, tímida, mas carregada de futuro.
Ali, na calçada do Amapá onde a Amazônia encontra o pulsar do mundo, o tempo deixa de ser uma linha reta. O século XII de Hildegarda Von Bingen, os sintetizadores modernos de Richard Souther, o piano pioneiro de Walkíria Lima e o sonho daqueles 33 primeiros alunos de 1952 convergem para o mesmo acorde presente.
A música, afinal, é a assinatura espiritual que não aceita esquecimento. Ela atravessa os rios do tempo porque sua raiz é feita de intenção pura, amor e cura. Sem portas, sem catracas e sem preço, a melodia continua cumprindo o seu papel mais nobre: o de ser o veículo divino que transporta, eternamente, a alma do autor direto para o coração de quem se atreve a escutar.
Com um sorriso cúmplice, o grupo dá o primeiro passo em direção aos corredores, deixando-se engolir pela correnteza de sons da escola. Eles não caminham apenas para uma aula; eles entram, de peito aberto, para fazer parte da canção que o Amapá nunca mais vai parar de cantar.













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