Leia o Artigo

  • Home
  • Leia o Artigo

Resgatar o país ou viver o samba da pobreza


O Brasil é visto, internamente e aos olhos do mundo, como um país soberano e democrático, com eleições livres e regulares, como é o desejo de todos os brasileiros. É salutar, entretanto, analisarmos nossa nação com criticidade e a atenção voltada à principal razão de um Estado: o bem-estar de seu povo.

Enganoso imaginar que o brasileiro vive um carnaval ininterrupto, extasiado pela alegria e anestesiado em relação às condições difíceis enfrentadas no dia a dia.

É sempre hora de despir a fantasia e refletir se, de fato, o Brasil oferece liberdade política, econômica e de expressão. O filósofo, economista, cientista político e escritor canadense-americano John Kenneth Galbraith (1908-2006) escreveu que liberdade política sem liberdade econômica é ilusão. Milton Friedman (1912-2006), economista e estatístico americano, vencedor do Prêmio Nobel de Ciência Econômicas em 1976, por sua vez, sempre defendeu que a liberdade econômica é um requisito essencial para a liberdade política.

Eis uma reflexão inescapável diante do que se vê no Brasil pós 2002 em razão de atos e objetivos da quase totalidade dos governos dos últimos 23 anos os quais, disfarçadamente ou não, empenharam-se em tirar recursos financeiros dos bolsos da parte mais empobrecida e menos informada da população, já sacrificada pela qualidade de ensino das escolas públicas que prejudica sua formação e, por consequência, a escraviza intelectualmente. Ao longo desse período, o povo foi sendo acostumado a receber migalhas apresentadas como benesses do governo, com pouquíssimos questionamentos de quem poderia (e deveria) levantar a voz contra essa estratégia de tirar do meu bolso o que quiser e me devolver a menor parte, como normalmente se esperaria de órgãos de imprensa atuantes e verdadeiramente livres e imparciais.

O manto populista ainda adorna a disseminação ensaiada de que todas as mazelas do povo empobrecido resultam da culpa dos ricos, sempre retratados como uma casta que não paga impostos e refratária a qualquer medida que lhe retire privilégios. Argumento simplista a alimentar o discurso do “nós” contra “eles”, divisionismo nada saudável para uma nação que precisa de todos para alcançar o bem coletivo, amplo, sem restrições. Tudo sempre reforçado por uma massiva propaganda, veiculada mediante dispêndio de polpudos recursos públicos na poderosa mídia, sobretudo rádio e televisão, ambas de maior acesso popular.

Não por acaso, inexistiram questionamentos sobre a alteração da fórmula de cálculo do reajuste do salário-mínimo, lei sancionada no apagar das luzes de 2024 que alterou e limita o reajuste real do salário mínimo penalizando o trabalhador e retirando dinheiro do seu bolso em comparação com o modelo antigo. Enquanto se propaga que nada além disso seria suportável aos cofres do governo, o Brasil tem salário-mínimo de apenas R$ 1.621,00 mensais (US$ 320,00/mês), a oitava pior remuneração entre todos os países da América do Sul e bem atras de Uruguai e Chile que superam os US$ 550,00/mês. Uma vergonha em se tratando da décima maior economia do mundo.

É igualmente doloroso constatar que o país tem 33 milhões de pessoas, o correspondente a 35,2% dos trabalhadores, com remuneração de até um salário-mínimo. É verdade que, depois de três anos de governo sem nenhuma correção, somente agora em ano eleitoral foi estendida a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco salários-mínimos, porém é igualmente verdadeiro que a nova fórmula de reajuste tirou dinheiro do bolso de cerca de 70% dos aposentados e pensionistas do INSS (mais ou menos 27 milhões de pessoas) e que isso atingiu também quase 5 milhões de pessoas dependentes do Benefício de Prestação Continuada (BPC) , na maioria idosos e com alguma deficiência e sem nenhuma outra renda. Mas não é só, porque durante dois anos o benefício do Bolsa Família não foi corrigido sequer pelo índice da inflação oficial, da ordem de 4,3% ao ano, prejudicando mais de 21 milhões de famílias, correspondente a cerca de 60 milhões de pessoas, inseridas no maior programa social do país.

Resumo da ópera (ou do samba): o Brasil ainda tem quase 100 milhões de pessoas - cerca de 46% da população – que dependem do governo de plantão para sobreviver.  E já que estamos em ano eleitoral, não custa lembrar que esse contingente representa próximo de 65% dos eleitores.

Com esse cenário, difícil discordar do pensamento de Galbraith segundo o qual sem liberdade econômica não se tem liberdade política e de escolha em eleições livres. O mesmo pensador sentenciou: “nada mais eficaz para limitar a liberdade de uma pessoa, incluindo a liberdade de expressão, como a total falta de dinheiro”.  É preciso lembrar também a histórica frase de outro escritor e ativista político norte-americano, Harry Browne (1933-2006), que alertou há tempos: “o governo é bom em uma coisa: ele sabe como quebrar as suas pernas para depois lhe dar uma muleta e dizer: ‘veja, se não fosse pelo governo, você não seria capaz de andar’".

Com pão e circo o povo não se rebela, avisava o poeta romano Juvenal que viveu no século 1 BC para criticar a política de ilusão do Império Romano. Pois o país do carnaval tem governos com 30 ministérios, uma máquina administrativa cara e morosa, sem nenhum esforço para reduzir o déficit bilionário e, por outro lado, um apetite enorme pela reeleição, regado a emendas Pix que fazem a alegria dos membros do Congresso Nacional.

O Brasil merece mais e o caminho da democracia plena passa pela necessária reestatização do Estado Brasileiro, libertando-o das garras e pondo fim ao reinado dos modernos donatários do poder. O Brasil ficou pra trás e para comprovar basta comparar a renda per capita de 2010, US$ 11.341,00/ano, de agora, 15 anos depois, inferior a US$ 10.650,00/ano, correspondente à 77ª posição no ranking mundial.  Além disso, mais da metade dos 26 Estados, sobretudo do Norte e Nordeste, tem mais beneficiários do Bolsa Família que trabalhadores do setor privado com carteira assinada. Pior, nossa educação, alicerce do futuro, ocupa hoje a vergonhosa 60ª posição no ranking da OCDE, apesar de o governo federal ano a ano empilhar recordes de arrecadação, esses, sim, comemorados.  O futuro não será diferente.

O brasileiro quer de volta o seu país, uma nação verdadeiramente livre, justa e democrática, em que todos serão cidadãos de classe única.

 

*Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva”, “Caminhos para um país sem rumo” e “Amazônia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial”. Site: https://samuelhanan.com.br


Blog Author Image

Articulista/Colunista

Samuel Hanan

É engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva” e “Caminhos para um país sem rumo”.

Site: https://samuelhanan.com.br


Parceiros Quem apoia o Jornal O GUARANI
Ideal
Nei
Paladar
Casa de Carnes Lobrito
Comercial Lobrito
Governo do Amapá
Rêsto da FAB
Ideal
Paladar
Paladar
Casa de Carnes Lobrito
Comercial Lobrito
Governo do Amapá
Rêsto da FAB

Watch Live

Live Tv
Author

Polical Topic

by Robert Smith