Leia o Artigo

  • Home
  • Leia o Artigo
O Eco dos Tambores e a Cidadela da Alma: Uma Jornada em Mazagão Velho

O Eco dos Tambores e a Cidadela da Alma: Uma Jornada em Mazagão Velho


O sol da tarde começava a inclinar-se sobre a copa alta da floresta amazônica, projetando raios dourados que atravessavam a fumaça sutil do café fresco recém-coado. Sentados sob a varanda de uma casa de madeira em Mazagão Velho, ao som distante do rio e ao eco suave dos ensaios de marabaixo, sete amigos compartilhavam a calmaria daquele refúgio ancestral.

— Reparem como o tempo aqui caminha em outro ritmo — disse Arturo, quebrando o silêncio e olhando para a terra batida do quintal. — Nossos ancestrais cruzaram o Atlântico a partir do Norte da África em 1770, carregando a dor do exílio para fincar raízes nesta terra. Eles nos ensinaram que o Templo Interior não se constrói com pedras imponentes, mas com a disposição de retornar ao terreno original da alma, pisando descalços onde a vida não precisa pedir licença para fluir.

— É verdade, Arturo — concordou Seni, ajustando o lenço sobre os ombros e sorrindo ao ver as crianças correndo pela rua com cabos de vassoura na mão. — Veja aquilo. Para eles, aquele pedaço de madeira é a espada mais afiada da Batalha de São Tiago, e a poça d'água da chuva de ontem é um oceano inteiro. A infância é esse altar da pureza. Quando as escrituras dizem que o Reino pertence aos que se tornam como crianças, elas nos chamam a descarregar o excesso de bagagem para voltar a caminhar leve.

Ycrad, apoiando as mãos no peito do tambor de batuque que descansava ao seu lado, balançou a cabeça devagar:

— A criança habita o instante sem acumular a luz do amanhã, Seni. Ela apenas bebe o raio de sol que entra pela janela. Nós, adultos, permitimos que a ansiedade crie uma névoa espessa no vidro da nossa percepção, fazendo-nos esquecer que as pepitas de ouro já estão espalhadas no chão do presente, e não em um horizonte distante.

— Essa névoa se dissipa quando aprendemos a escutar o cotidiano — interveio Anicaroh, inspirando profundamente o aroma que saía da cozinha. — O cheiro deste café, o estalar das roupas no varal balançando ao vento da mata, o barulho do rio... nada disso é mera nostalgia. O ordinário é o manto de simplicidade com o qual o Sagrado se veste para passear entre nós sem nos assustar.

— Isso me faz lembrar o que os filósofos chamavam de Amor Fati — comentou Airam, fitando as flores colhidas sobre a mesa de madeira. — Como vocês sabem referido amor refere-se ao fato de amar o destino por inteiro, abraçando o sol radiante e a tempestade imprevista com a mesma reverência. É compreender que a dor que ensina e a alegria que reconforta são fios trançados no mesmo tear da existência. O quintal mais bonito que pisamos nunca foi apenas terra e grama, mas aquele estado de consciência onde a mente repousa livre das expectativas do mundo.

Nnaor, que observava o horizonte onde a floresta tocava o céu, tomou a palavra com voz calma e pausada:

— Quando o marabaixo toca e o couro do tambor vibra no peito, o que sentimos é o eco da Memória da Alma, a própria Luz Cósmica nos chamando. Na infância, a membrana entre a nossa consciência e a Fonte Criadora é fina como seda. Enxergamos a criação com os olhos do espírito porque recém-chegamos da Origem. Com o tempo, as obrigações e os relógios cobrem essa visão com as vestes pesadas da matéria, mas a chispa divina (ou seja a faísca, a ideia repentina, uma centelha de inspiração) permanece intocada, aguardando o sopro do reencontro.

— E quando a noite da nossa jornada terrestre se aproximar — concluiu Leirbag, olhando carinhosamente para cada um dos presentes —, não levaremos títulos, cofres ou as preocupações pelos dias que não vivemos. Ao abrir nosso alforje sagrado (aquela bolsa dupla que os peregrinos e viajantes carregavam no ombro, com pão, água e o essencial para a jornada), veremos que só permaneceu aquilo que foi banhado em essência: a gargalhada sincera, o abraço demorado e a paz desta tarde quieta. Despir-se das máscaras do mundo é o maior ato de coragem espiritual. Reencontrar esse altar é pegar pela mão a criança que fomos, aquela que sabia exatamente quem era antes que o mundo lhe dissesse quem ela deveria ser.

Enquanto a noite abraçava calmamente as margens de Mazagão Velho e os tambores ao longe continuavam a pulsar no ritmo do rio, o silêncio que se fez entre os sete amigos não era de ausência, mas de preenchimento. Eles compreenderam que a verdadeira travessia não é aquela que cruza os oceanos da terra, mas a que navega de volta ao santuário do coração. Que o eco dessa conversa permaneça aceso em cada passo, lembrando-nos de que a maior riqueza da vida não está naquilo que acumulamos ao longo do caminho, mas na capacidade de retornar, todos os dias, ao quintal sagrado da nossa própria alma.


Blog Author Image

Articulista/Colunista

João Batista Neto

Professor, palestrante, Advogado, Administrador e Psicólogo.

Contribua. Comente!

O que achou deste artigo?



Parceiros Quem apoia o Jornal O GUARANI
Ideal
Nei
Paladar
Casa de Carnes Lobrito
Comercial Lobrito
Governo do Amapá
Rêsto da FAB
Ideal
Paladar
Paladar
Casa de Carnes Lobrito
Comercial Lobrito
Governo do Amapá
Rêsto da FAB

Watch Live

Live Tv
Author

Polical Topic

by Robert Smith