Leia o Artigo

  • Home
  • Leia o Artigo
A nova disputa da energia é pelo tempo

A nova disputa da energia é pelo tempo


China transforma armazenamento em estratégia; o Brasil começa a construir seu mercado.

Durante décadas, o poder energético foi medido pela quantidade de recursos que um país controlava: barris de petróleo, reservas de gás, barragens, usinas e linhas de transmissão. A expansão das fontes solar e eólica adicionou outra variável a essa equação. Já não basta saber quanto um país consegue gerar. É preciso saber quando essa energia estará disponível e se o sistema conseguirá entregá-la no momento em que a população e a economia mais precisam.

Essa diferença de algumas horas, aparentemente simples, está reorganizando o setor elétrico mundial. A eletricidade precisa ser produzida e consumida quase simultaneamente. Uma usina solar gera mais durante o dia, mas o consumo pode atingir seu pico no início da noite. A produção eólica varia conforme o regime dos ventos. Em determinadas regiões, existe energia disponível, mas a transmissão não consegue escoá-la. Sem flexibilidade, parte da geração precisa ser cortada e investimentos já realizados deixam de produzir todo o valor que poderiam.

É nesse intervalo entre geração e consumo que o armazenamento deixou de ser um equipamento complementar e passou a ocupar uma posição estratégica. Uma bateria não cria energia. Ela desloca a energia no tempo: armazena quando há abundância e entrega quando o sistema precisa. Ao fazer isso, transforma disponibilidade em confiabilidade e converte variação de horário em valor econômico.

O Brasil acaba de dar um passo importante nessa direção. Em 28 de julho, a Agência Nacional de Energia Elétrica abriu consulta pública para os dois primeiros leilões brasileiros de reserva de capacidade voltados a sistemas autônomos de armazenamento. As licitações estão previstas para dezembro de 2026, com contratos de 15 anos e início de suprimento em 2028. Os projetos deverão ter pelo menos 30 megawatts de potência e capacidade para fornecer energia durante quatro horas. Um dos leilões será exclusivo para baterias de fabricação nacional; o outro permitirá a participação de sistemas sem essa exigência. A iniciativa mostra que o armazenamento começa a deixar o campo dos estudos para entrar na estrutura regulatória e contratual do setor elétrico brasileiro. Segundo a ANEEL, os sistemas serão despachados pelo Operador Nacional do Sistema e receberão uma receita fixa pela disponibilidade de potência.

Enquanto o Brasil prepara sua entrada nesse mercado, a China encerrou 2025 com aproximadamente 136 gigawatts de potência e 351 gigawatts-hora de capacidade de armazenamento. Em apenas cinco anos, o país saiu de cerca de 3 gigawatts para quase metade de toda a capacidade mundial. Somente em 2025, o crescimento foi de 84,3%.

Os números estão em um relatório recente, elaborado por órgãos do governo chinês. O documento mostra que o país não tratou as baterias apenas como apoio à expansão solar e eólica. O armazenamento foi incorporado ao planejamento elétrico, à política industrial, à formação profissional, aos programas de pesquisa e à estratégia de inserção internacional.

Essa talvez seja a principal diferença. A China não construiu somente usinas de armazenamento. Desenvolveu uma cadeia que reúne materiais, células, inversores, sistemas de controle, engenharia, padrões técnicos, universidades, financiamento e capacidade exportadora. Em 2025, produziu 570 gigawatts-hora de baterias destinadas ao armazenamento estacionário, mais de 17 vezes o volume de 2021. As empresas chinesas responderam por mais de 90% das remessas mundiais de baterias de lítio voltadas a essa finalidade.

Mas o aprendizado chinês mais relevante não está apenas na escala alcançada. O próprio relatório reconhece que instalar capacidade é mais fácil do que utilizá-la de forma eficiente. Em 2025, os sistemas chineses realizaram, em média, 256 ciclos equivalentes, com diferenças expressivas entre as regiões. Enquanto algumas províncias conseguiram integrar as baterias ao mercado e ao despacho do sistema, outras mantiveram ativos subutilizados.

Por isso, a China começou a reduzir exigências administrativas que obrigavam projetos renováveis a instalar armazenamento e passou a priorizar sinais econômicos. O objetivo agora é remunerar os serviços realmente entregues: energia nos horários de maior demanda, capacidade de reserva, controle de frequência, suporte à rede e redução de cortes de geração. O armazenamento independente já representa 51,2% da capacidade chinesa, superando os sistemas vinculados diretamente a parques solares e eólicos.

Essa transição oferece uma lição importante para o Brasil. Instalar baterias ao lado de usinas não garante, por si só, benefício ao sistema. É necessário definir onde os projetos serão mais úteis, como serão acionados, quais serviços poderão prestar e de que maneira esses serviços serão remunerados. Sem planejamento e mercado, corre-se o risco de contratar equipamentos caros que permanecem grande parte do tempo sem utilização adequada.

Também é preciso evitar a ideia de que as baterias resolverão sozinhas os desafios da transição energética. Na China, 96,1% da capacidade está concentrada em sistemas de íons de lítio, cuja duração média é de 2,58 horas. O produto brasileiro exigirá quatro horas. Esses sistemas são importantes para deslocar energia dentro do mesmo dia, atender picos de demanda e responder rapidamente a perturbações. Não foram concebidos para suprir semanas de escassez, substituir redes de transmissão ou enfrentar sozinhos períodos prolongados de baixa produção renovável.

Quanto maior a participação de fontes variáveis, maior será o valor de todos os recursos capazes de oferecer segurança e flexibilidade. Isso inclui baterias, reservatórios hidrelétricos, transmissão, gestão da demanda e geração despachável. O armazenamento não elimina a necessidade de outras fontes. Ele permite que o conjunto opere melhor.

O Brasil parte de uma condição diferente da chinesa. Nossos reservatórios hidrelétricos já funcionam como grandes instrumentos de armazenamento e flexibilidade. Mas essa vantagem não é ilimitada nem está necessariamente localizada onde surgem as novas necessidades do sistema. A expansão solar e eólica, os cortes de geração, as restrições de transmissão e a difusão da geração distribuída criam demandas que as baterias podem atender com maior velocidade e precisão.

O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 reconhece esse potencial. A Empresa de Pesquisa Energética identifica o armazenamento como recurso para reduzir cortes de geração, deslocar energia entre horários, melhorar a qualidade do fornecimento, apoiar microrredes e integrar usinas virtuais. Ao mesmo tempo, alerta que o dimensionamento inadequado pode elevar o investimento e produzir longos períodos de subutilização. O estudo da EPE reforça que a viabilidade depende não apenas da queda do preço das baterias, mas também da evolução das tarifas, da regulação e dos modelos de negócio.

A criação de um produto específico para baterias de fabricação nacional introduz outra questão decisiva. O primeiro leilão brasileiro será apenas uma política de contratação de potência ou também o início de uma política industrial?

Reservar espaço para a fabricação nacional é relevante, mas não cria automaticamente uma cadeia produtiva. Sem escala, pesquisa, formação profissional, padrões de segurança, financiamento e demanda contínua, o conteúdo nacional pode se limitar às etapas finais de montagem. O valor estratégico está na capacidade de dominar engenharia, eletrônica de potência, software, integração, operação, manutenção, reciclagem e controle dos sistemas. É nesses segmentos que o Brasil precisa identificar onde possui condições reais de desenvolver competências competitivas.

Para a Amazônia, o debate assume características ainda mais concretas. Sistemas de armazenamento podem ajudar a integrar fontes renováveis, reduzir o consumo de diesel em localidades isoladas, melhorar a qualidade da energia e aumentar a resiliência de hospitais, escolas, sistemas de comunicação e outras estruturas essenciais. No Amapá, entretanto, nenhuma análise responsável deve apresentar baterias como substitutas de transmissão adequada, manutenção preventiva ou geração de reserva. Elas são uma camada adicional de segurança, não uma solução para deficiências estruturais.

A oportunidade regional mais imediata talvez não esteja na promessa de instalar uma grande indústria de baterias, mas na preparação para utilizar, operar e manter esses sistemas. Formação técnica, engenharia, monitoramento, segurança, integração de microrredes e projetos aplicados a cargas críticas podem criar competências locais antes que o mercado esteja completamente consolidado. O desenvolvimento não começa apenas quando uma fábrica chega. Começa quando o território compreende a mudança e se prepara para participar dela.

A China transformou o armazenamento em infraestrutura e indústria. O Brasil começa a construir as regras para contratá-lo. Entre esses dois estágios existe uma escolha. Podemos apenas importar equipamentos para responder a necessidades imediatas ou utilizar a formação desse mercado para desenvolver capacidade técnica, empresarial e institucional.

A nova disputa da energia não será vencida somente por quem possuir mais recursos ou instalar mais usinas. Será vencida também por quem conseguir controlar o momento em que a energia se transforma em produção, segurança e desenvolvimento. A China já transformou o tempo em ativo estratégico. O Brasil começa agora a decidir o que fará com o seu.


Blog Author Image

Articulista/Colunista

Elissandro Araújo

Professor, palestrante e especialista em energia, governança pública e corporativa e desenvolvimento regional.

Contribua. Comente!

O que achou deste artigo?



Parceiros Quem apoia o Jornal O GUARANI
Ideal
Nei
Paladar
Casa de Carnes Lobrito
Comercial Lobrito
Governo do Amapá
Rêsto da FAB
Ideal
Paladar
Paladar
Casa de Carnes Lobrito
Comercial Lobrito
Governo do Amapá
Rêsto da FAB

Watch Live

Live Tv
Author

Polical Topic

by Robert Smith