Leia o Artigo

  • Home
  • Leia o Artigo
O Sagrado Dança com o Cotidiano: Sete Amigos e uma Lição sobre Inveja na Praça da Conceição

O Sagrado Dança com o Cotidiano: Sete Amigos e uma Lição sobre Inveja na Praça da Conceição


O entardecer em Macapá trazia aquele vento generoso que costuma refrescar o tradicional bairro do Trem. Na Avenida Cônego Domingos Maltês - Trem, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição se erguia como um poema de pedra e fé, fundindo suas linhas clássicas com os sussurros da modernidade. Na praça recém-renovada, o calçamento novo desenhava caminhos sob a sombra das árvores, enquanto a iluminação noturna começava a vestir o ambiente de ouro, transformando o espaço em uma verdadeira sala de estar a céu aberto.

Ali, onde o sagrado dança com o cotidiano, um grupo de amigos de longa data partilhava o silêncio e o frescor da noite: Arturo, Ycrad, Anicaroh, Airam, Seni, Nnaor e Leirbag. O movimento da missa havia acabado, e o café compartilhado na praça trazia um profundo gosto de comunidade.

Anicaroh olhava para o vai e vem das pessoas na avenida, algumas pressurosas, outras presas às telas de seus celulares. Ela suspirou, quebrando o silêncio:

— Vocês já repararam como vivemos em uma época de vitrines? Olhamos para a vida dos outros e enxergamos apenas os cenários iluminados, os banquetes e as conquistas aparentes. Diante disso, o coração humano, tantas vezes fragilizado, cai na armadilha da inveja. A própria Bíblia descreve esse sentimento em Provérbios 14:30 de forma cirúrgica: é "a podridão dos ossos". Algo que consome a nossa vitalidade por dentro enquanto tentamos medir a nossa felicidade com a régua alheia.

Ycrad, ajustando-se no banco da praça, balançou a cabeça em concordância.

— É a mais pura verdade, Anicaroh. A inveja nasce justamente da ilusão de que sabemos tudo sobre o outro. Julgamos o livro apenas pela capa dourada, sem conhecer o peso e a dor das páginas escritas no silêncio. As Escrituras nos alertam em 1 Samuel 16:7 que "o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração". Se pudéssemos enxergar por trás das cortinas da riqueza ou do sucesso alheio, nossa inveja se transformaria instantaneamente em compaixão.

Leirbag, que ouvia atentamente, endireitou a postura e olhou para o grupo.

— Isso me lembra uma história poderosa que ouvi recentemente. Uma lição sobre o perigo de desejar a vida de outrem. Escutem bem...

Com a Igreja de Nossa Senhora da Conceição iluminada ao fundo, a voz de Leirbag ecoou mansa, narrando a jornada comovente:

Numa tarde dourada, um senhor de posses fartas deixava o shopping com seu filho de 10 anos. As mãos carregavam sacolas e mais sacolas, tecidos finos comprados para todos os filhos que o aguardavam em casa. Enquanto acomodava as compras no banco do carro, o silêncio do estacionamento foi quebrado por uma voz miúda. Era um menino. Pele marcada de sol, roupas gastas pelo tempo, olhos que conheciam a estrada.

— Tio, o senhor teria uma roupa aí pra me dar? É que eu só tenho essa aqui no corpo.

O homem rico fitou aquela pequena figura. O coração, que conhecia o peso do ouro, foi tocado por algo mais pesado: a ternura. Virou-se para o filho, que observava tudo com olhos de céu limpo, e sussurrou:

— Meu filho, você me daria a honra de dividir? Você tem tantas roupas novas, e ele só tem uma. Se sentir falta, voltamos aqui e o papai te compra outras. O que você acha?

O menino assentiu. Com um sorriso que iluminava mais que qualquer vitrine, escolheu algumas sacolas e as entregou. O outro garoto as abraçou como quem abraça um milagre.

— Quantos anos você tem? — perguntou o pai.

— Dez — respondeu ele, a voz trêmula de alegria.

Dez. A mesma primavera de vida do meu filho. O menino pobre saiu dali dançando com os pés descalços no asfalto. Mas, enquanto caminhava, uma sombra se aninhou em seu peito. A inveja, essa flor amarga, brotou:

— Como a vida é injusta. Meus pais são tão pobres que não podem me dar nem um fio de roupa nova. E aquele menino… tem um pai tão rico que compra o mundo em sacolas. Ah, se eu pudesse trocar de alma com ele, trocaria agora.

Três semanas se passaram como folhas ao vento. O menino brincava na terra batida em frente ao seu barraco quando um relâmpago prateado cortou a rua. Uma Mercedes parou. A porta se abriu, e dele desceu o mesmo homem. O porta-malas também se abriu, revelando um tesouro: brinquedos que ainda tinham cheiro de loja, roupas dobradas com carinho, sapatos que nunca tocaram o chão.

— Eu descobri onde você morava — disse o homem, com a voz embargada de oceanos. — Trouxe tudo isso pra você. São os brinquedos, as roupas, os sapatos do meu filho.

O menino arregalou os olhos, assustado:

— Mas… se o senhor está me dando tudo do seu filho, com o que ele vai ficar?

O homem respirou fundo. E foi como se o mundo inteiro silenciasse para ouvi-lo:

— Meu filho não precisa mais. Ele partiu. Está agora brincando nas nuvens, no colo de N. Sra da Conceição.

O tempo parou.

— Meu filho tinha uma tempestade dentro dele. Um câncer terminal. Naquele dia em que nos encontramos, filho, a pessoa rica não era o meu menino. A pessoa rica era você. A pessoa feliz não era ele. Era você. Quando entramos no carro, ele chorou no meu ombro e me disse: “Papai, eu daria todos os nossos tesouros, todas as sacolas do mundo, para ter a vida daquele menino. Porque ele é pobre, mas tem um futuro inteiro pra desenhar. E eu… eu não tenho mais tempo.”

Um silêncio profundo e reverente tomou conta do banco da praça. Airam limpou uma lágrima discreta no canto do olho. Seni olhou para as próprias mãos, tocada pela crueza e beleza da mensagem.

Nnaor, que acompanhava cada palavra, concluiu o pensamento da história:

— O vento leva as palavras, mas deixa a lição cravada na alma: não inveje a jornada de ninguém. Você não vê as cicatrizes que a roupa esconde. Há cofres cheios de ouro e corações vazios de saúde. Há mansões com risos ensaiados e barracos com gargalhadas verdadeiras. Há fama que ecoa no mundo e solidão que grita no quarto. Deus te costurou uma vida sob medida. Te deu um amanhecer, te deu uma família, te deu fôlego. Honre seu tecido, mesmo que ele seja simples. Porque é nele que Deus vai bordar seu milagre. Em tudo, dê graças. Até quando não entender. Porque cada batida do seu coração é um poema que Deus ainda está escrevendo.

Arturo, que mantinha os olhos fixos na imponência da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, fechou o ciclo de reflexões do grupo trazendo à tona a teologia viva do cotidiano:

— Isso resume tudo o que o apóstolo Paulo nos ensinou em Filipenses 4:11: "Aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura". A grande sacada da vida é entender que a riqueza genuína dificilmente vem dentro de embrulhos caros ou em contas bancárias expressivas. A nossa maior riqueza real e concreta é o tempo que temos, a saúde que nos sustenta e a bendita oportunidade de um novo recomeço a cada manhã.

A noite avançava sobre o bairro do Trem, e a Praça de Nossa Senhora da Conceição parecia ainda mais terna, banhada pela luz dourada que unia o altar e o calçamento. Ali, entre o farfalhar das folhas e o aceno caloroso dos vizinhos que se recolhiam, os sete amigos compreenderam que a verdadeira devoção não se encerrava nos limites do templo; ela transbordava para os bancos de madeira, para as conversas sinceras e para a aceitação grata da própria existência.

A lição daquela noite ecoou como as badaladas invisíveis dos sinos da Igreja: olhar para o lado com cobiça é desdenhar do milagre que já fomos chamados a viver. A vida não pede os cenários artificiais das redes sociais ou o peso sufocante de conquistas

vazias. Ela pede presença. Pede o abraço da comunidade, o fôlego de acordar em Macapá, a chance de recomeçar e a sabedoria de entender que cada história — com suas dores ocultas e alegrias simples — já é o solo sagrado onde a graça de Deus decide florescer. Quem passou por ali naquela noite não viu apenas amigos conversando sob as árvores. Viu o próprio sagrado dançando, leve e agradecido, com o cotidiano.


Blog Author Image

Articulista/Colunista

João Batista Neto

Professor, palestrante, Advogado, Administrador e Psicólogo.

Contribua. Comente!

O que achou deste artigo?



Parceiros Quem apoia o Jornal O GUARANI
Ideal
Nei
Paladar
Casa de Carnes Lobrito
Comercial Lobrito
Governo do Amapá
Rêsto da FAB
Ideal
Paladar
Paladar
Casa de Carnes Lobrito
Comercial Lobrito
Governo do Amapá
Rêsto da FAB

Watch Live

Live Tv
Author

Polical Topic

by Robert Smith