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O crepúsculo das raízes: diálogo na rua torta


Em Macapá, onde o Amazonas beija o céu, nasceu um caminho que se recusa a andar em linha reta. A Rua Torta, no coração do bairro Santa Inês, desenha seus 723 metros de poesia sobre a Avenida Caramuru, entre a Odilardo Silva e a Beira Rio. Mais que uma via, ela é um convite: com curvas sinuosas como um suspiro, paisagismo que acaricia os olhos e luzes de LED que piscam feito vaga-lumes urbanos, ela serpenteia devagar para oferecer tempo de namorar a vista.

E que vista: o majestoso Rio Amazonas, inteiro e panorâmico. A Rua Torta é de mão única, mas de sentidos infinitos. Cada curva revela um novo ângulo do rio; cada poste aceso à noite parece iluminar também uma memória boa. Foi pensada para ser mais que passagem — para ser pausa, encontro e cartão-postal vivo da capital amapaense. Ali, o empreendimento floresce, o emprego nasce e o turista se encanta.

Mas o seu verdadeiro segredo é o aconchego; o detalhe sonhado para que o amapaense se reconheça e o visitante leve Macapá no peito. A Rua Torta não liga apenas dois pontos da orla; liga a cidade ao rio, o povo à beleza e o hoje às lembranças que ainda vamos criar. É Macapá se contando em curvas; é o Amazonas ganhando moldura.

O sol começava a mergulhar no horizonte quando o vento, úmido e quente, soprou sobre Arturo, Ycrad, Anicaroh, Seni, Nnaor e Leirbag. Eles observavam, sentados, o movimento de jovens com olhos grudados em telas, ignorando a imensidão das águas à frente.

Arturo: (Suspirando) Olhem para isso. O rio corre com uma força milenar, mas essa geração parece estagnada em águas paradas de pixels. Estão “conectados”, mas nunca estiveram tão sós.

Ycrad: É o império do efêmero, Arturo. Hoje, os relacionamentos são como os feeds das redes sociais: você desliza, consome e descarta. Não há o desejo de construir, apenas de sentir o prazer imediato. O “sexo virtual” e os encontros passageiros são sintomas de uma alma que tem medo da profundidade.

Anicaroh: Porque a profundidade exige trabalho, e “trabalho” virou um palavrão. Vejo jovens que se negam a lavar a própria louça e não entendem que a liberdade sem responsabilidade é apenas uma forma elegante de escravidão. Esqueceram o preceito de Gênesis 1:28: “Crescei e multiplicai”.

Seni: Mas, Anicaroh, eles acham que “multiplicar” é apenas somar seguidores. Esquecem que a multiplicação é física, mental e espiritual. Se você não multiplica o conhecimento e a virtude, você estagna. E, como diz o ditado: o que estagna, apodrece.

Nnaor: Exato, Seni. E essa estagnação vem da negação do Ciclo. O homem moderno acha que o progresso é uma linha reta infinita rumo ao prazer. Não entendem que a vida é roda: dia e noite; semente e fruto. Querem o fruto sem ter plantado a semente; desejam o apogeu sem aceitar o desconforto do esforço.

Leirbag: (Apontando para o rio) O rio é o mestre. Ele tem momentos de calmaria e momentos de Caos. Mas o caos precede a ordem. Hoje, vivemos um caos vazio porque os novos homens não querem sustentar o pacto geracional. Ignoram os mais velhos e nos tratam como “peso” quando, na verdade, somos a raiz. Se a árvore nega a raiz, cai no primeiro vento.

Arturo: É a Lei Hermética do Ritmo. Tudo flui e reflui. Estamos vendo o declínio de uma era onde a soberba e a acomodação tomaram o lugar do serviço. Cristo disse que era necessário que Ele fosse para que o Consolador viesse; Ele respeitou o ciclo da morte para o renascimento. Mas essa juventude quer a ressurreição sem a cruz e a aposentadoria sem ter caçado para a tribo.

Ycrad: A ancestralidade foi trocada pelo narcisismo. O jovem deveria estar “caçando” — estudando, trabalhando, criando oportunidades — para que, amanhã, o ciclo permita que os idosos descansem. É a previdência espiritual: plantar a árvore cuja sombra não se irá usar.

Anicaroh: Se não entenderem que são herdeiros de um espírito e de uma cultura, o caos que virá não será fértil, será apenas destruição. “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la”. Quem vive só para o próprio prazer, declina sozinho.

Leirbag: (Levantando-se) No fim, a ordem de Deus é simples: “Não deixem a roda parar”. Mas, para a roda girar, é preciso suor, respeito e a consciência de que somos parte de algo muito maior que a nossa própria vontade.

A conversa entre os amigos na orla de Macapá revela uma verdade que a modernidade tenta esconder sob o véu da tecnologia: a vida não é um evento isolado, mas um Pacto Geracional. O vício no digital, o desrespeito aos mais velhos e a fuga das responsabilidades são sinais de uma geração que parou de multiplicar “vida” para apenas consumir “existência”.

O antídoto para essa efemeridade reside no retorno aos princípios de Gênesis, Ciclo, Caos e Geração. Somente quando o jovem entender que é o sustento do passado e a ponte para o futuro, o caos atual poderá dar lugar a uma nova ordem fértil. Como as águas do Amazonas que se renovam, a humanidade só sobrevive se aceitar que o seu propósito não é apenas “chegar lá”, mas manter o movimento sagrado da vida através do trabalho, do serviço e da honra aos que vieram antes.


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Articulista/Colunista

João Batista Neto

Professor, palestrante, Advogado, Administrador e Psicólogo.

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