Antes e depois do primeiro barril
A discussão sobre a Margem Equatorial costuma começar pelo petróleo. No entanto, o horizonte mais relevante pode estar além do óleo bruto. Se confirmada a viabilidade comercial das reservas na costa do Amapá, o impacto decisivo poderá residir não no barril extraído, mas na infraestrutura energética que se organizará ao redor dele.
A economia do Amapá consolidou um PIB de aproximadamente R$ 28 bilhões em seu último ciclo oficial, com renda média mensal pouco acima de R$ 1.500. É uma estrutura produtiva em expansão, ainda com espaço significativo para diversificação industrial. A entrada de um novo vetor energético não altera apenas a arrecadação potencial. Pode alterar a base sobre a qual a economia se organiza.
Antes do primeiro barril, definem-se as bases institucionais, fiscais e energéticas que sustentarão o ciclo produtivo. A perfuração exploratória em andamento no bloco FZA-M-059 já inaugura essa etapa. Independentemente do resultado comercial, decisões técnicas estão sendo tomadas, cadeias de fornecedores se posicionam e órgãos reguladores operam. O ciclo começa antes da produção.
A experiência recente da Guiana ajuda a compreender essa lógica. Após confirmar reservas offshore, o país passou a registrar taxas expressivas de crescimento econômico. Mas o movimento estratégico mais importante não foi apenas ampliar a exportação de petróleo. O governo anunciou a construção de novos gasodutos para levar gás natural à costa e utilizá-lo como base de geração de energia e desenvolvimento industrial. O objetivo declarado é reduzir custos energéticos internos e criar novas atividades produtivas além do setor de extração.
Essa decisão dialoga com uma tendência global. O Electricity 2026, relatório da IEA, projeta um crescimento sem precedentes da demanda global por eletricidade nas próximas décadas, impulsionado por digitalização, mobilidade elétrica, data centers e industrialização em países emergentes. Nesse cenário, o gás natural ocupa papel estratégico como vetor de estabilidade energética e complemento às fontes renováveis. Ele permite expansão da eletrificação com previsibilidade de fornecimento.
O ponto central é simples: infraestrutura energética molda competitividade.
Essa tendência global reforça que energia barata e estável deixou de ser vantagem e passou a ser pré-condição para atrair investimentos econômicos. O Amapá ainda enfrenta desafios históricos de segurança elétrica e dependência de interligações externas. Frente a esse cenário, a pergunta relevante para o estado, portanto, não é apenas se haverá petróleo. É como a eventual produção poderá dialogar e ampliar consideravelmente a matriz energética regional.
Depois do primeiro barril, os efeitos das escolhas anteriores tornam-se visíveis. Se a energia for tratada apenas como commodity exportável, o impacto tende a concentrar-se na arrecadação e na extração primária. Se for integrada à estratégia energética local, poderá induzir novas atividades econômicas, ampliar a base produtiva e criar vantagens competitivas duradouras.
Regiões que utilizaram o gás natural para reduzir custo de energia e ampliar oferta elétrica criaram condições para atrair manufatura, processamento de alimentos, logística refrigerada e serviços intensivos em tecnologia. Regiões que permaneceram apenas na exportação primária limitaram seus efeitos multiplicadores.
O debate sobre a Margem Equatorial não deveria começar pelo barril, mas pela energia. Se houver produção comercial, o petróleo será um produto. O gás poderá ser uma estratégia. E a eletrificação poderá ser a verdadeira alavanca de desenvolvimento.
A diferença entre esses dois caminhos não é geológica. É estratégica. Antes do primeiro barril, constrói-se a arquitetura energética. Depois dele, colhem-se as consequências dessa arquitetura.
Se o Amapá vier a integrar o mapa produtor da Margem Equatorial, o desafio não será apenas extrair petróleo, mas decidir que papel a energia desempenhará em seu projeto de desenvolvimento. O antes define o depois.
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Elissandro Araújo é professor, palestrante e especialista em energia, governança pública e corporativa e desenvolvimento regional.





