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Amapá 2026: entre o favoritismo, o fato novo e o “ainda não terminou”


As pré-candidaturas de 2026 no Amapá começam a ganhar forma como todo bom roteiro eleitoral amazônico: um governo que tenta consolidar entregas, adversários bem avaliados — mas vulneráveis a intempéries judiciais — e um Senado que sempre vira arena de vaidades, sobrevivência e ambição. A política local, aliás, já ensinou que não basta ser favorito: é preciso chegar inteiro até outubro. E não são poucos os que naufragam antes da largada final.

Clécio e a tentativa de transformar gestão em voto

O governador Clécio entra nesse ciclo construindo condições reais para disputar a reeleição com algo que pouca gente consegue manter de pé por muito tempo: agenda de obra, presença administrativa e narrativa de resultados.

E quando se fala em estrutura, não é só “asfalto e placa”. A base do discurso governista está nas entregas de alto impacto, sobretudo na saúde: novo Hospital de Emergências, com sete andares e heliponto, avanço em radioterapia, e expansão da rede com hospitais regionais em Oiapoque, Porto Grande e Laranjal do Jari. Soma-se a isso investimento em segurança pública, com a ofensiva permanente contra o crime organizado e quase 300 faccionados presos, além do pacote tradicional que “faz barulho” em ano pré-eleitoral: escolas, concursos e valorização do servidor.

O que Clécio tenta, na prática, é simples: tirar a eleição da espuma e colocar no concreto. Quando o eleitor percebe que a vida melhorou “na ponta”, o governo ganha blindagem. E em 2026, a reeleição passa por esse detalhe: não basta governar — tem que governar e convencer.

Dr. Furlan: popularidade alta, risco alto

Do outro lado, o prefeito de Macapá, Dr. Furlan, é um adversário óbvio, porque tem o que governações temem: boa avaliação pública e recall alto. Só que existe um fantasma rondando a pré-candidatura com um peso político difícil de conter: o inquérito da Polícia Federal.

A investigação que apura suspeitas de corrupção em obras públicas, com desdobramentos ligados à Operação Paroxismo, já trouxe um elemento devastador do ponto de vista eleitoral: busca e apreensão na residência do prefeito, com apreensão do celular dele e de pessoas do seu entorno. Isso não é só uma notícia ruim — é um símbolo ruim. E, em política, símbolos matam mais do que números.

Pior: a própria PF já teria identificado desvio de cerca de R$ 9 milhões na obra do hospital e maternidade municipal da zona norte, com menções a motoristas ligados à gestão conduzindo “sacos com dinheiro”. Se a investigação evoluir, o prefeito pode descobrir — tarde demais — que popularidade não funciona como colete à prova de escândalo.

E aqui entra a lembrança inevitável: 2010. A Operação Mãos Limpas mostrou, com requintes de crueldade política, que o Amapá é terreno fértil para um tipo de eleição em que não vence o melhor, vence o sobrevivente. Foi quando favoritos viraram pó e improváveis viraram mandato.

Se 2026 repetir essa lógica, a pergunta muda: não será “quem tem mais voto hoje?”, mas “quem aguenta ficar de pé até o fim?”.

Senado: duas vagas, muitos sonhos e uma bomba-relógio

A disputa ao Senado promete ser um capítulo à parte — e não por falta de nomes.

Rayssa, esposa do prefeito Furlan, aparece liderando a corrida por uma das duas vagas. Mas a política é impiedosa com candidaturas que dependem demais de um único motor: ela corre bem, mas corre com um detalhe delicado na mochila — a sorte e o destino do seu principal cabo eleitoral. Por isso, vive no modo “orar e vigiar”, porque qualquer abalo no prefeito pode se transformar em um terremoto na candidatura dela.

Randolfe, que já foi duas vezes o mais votado, entra como quem conhece o terreno e sabe jogar com densidade nacional e base local. É candidato ao terceiro mandato, e dificilmente se pode ignorar quem já venceu duas vezes com folga.

Lucas Barreto, por sua vez, representa a política longeva, tradicional, e com capilaridade construída no tempo. Está no sexto mandato eletivo, e isso no Amapá não é apenas currículo — é rede, é estrutura e é lastro.

E há ainda o ex-governador e atual ministro do desenvolvimento regional — político de quatro mandatos no Executivo e dois no Legislativo estadual — que não deve ser subestimado por um motivo bem simples: ele conhece o Estado andando. E no Amapá, caminhar “fácil pelos quadrantes” ainda vale mais do que marqueteiro.

Já o deputado federal Acácio Favacho traz consigo o peso de uma tradição familiar de mandatos sucessivos desde 1991, conectada à gênese da autonomia política do Estado. Reeleito com a segunda maior votação, tem no MDB uma fortaleza e musculatura para brigar seriamente por uma vaga. Não é candidatura decorativa — é candidatura competitiva.

No Senado, portanto, o que se desenha é um cenário de guerra de trincheira: dois assentos, muitos generais, e qualquer passo em falso vira queda livre.

Câmara Federal: migração, fisiologismo e revoadas sem pudor

Se no Executivo e no Senado o jogo é de estrutura, na Câmara Federal é de sobrevivência e oportunismo — com revoadas que expõem o retrato mais cru do sistema.

O pedetista Dorinaldo Malafaia já ensaia a troca de endereço partidário: “malas e cuias” rumo ao PT, numa movimentação que, no Brasil, geralmente significa uma coisa: proximidade de projeto nacional e cálculo pragmático de 2026.

Ao mesmo tempo, a ex-deputada professora Goreth Sousa troca a amizade histórica com Waldez e o PDT por uma secretaria na gestão municipal, com obrigação de filiação ao Podemos — gesto que não parece ideológico, mas transacional. Política de resultados pessoais, sem filtro e sem cerimônia. É o tipo de movimento que o eleitor percebe, mas que o sistema aplaude em silêncio.

2026: menos extremos, mais “mundo real”

Por isso tudo, o Amapá caminha para uma eleição em que não será “a era dos extremos”. Será, na verdade, a era do mundo real: obra contra denúncia, estrutura contra risco, máquina contra fato novo, e sobrevivência acima de qualquer romantismo.

E como toda eleição que se preza, 2026 será “o ano que ainda não terminou”. Porque aqui, meu caro, ainda tem muita água pra rolar — por cima e por baixo da ponte.

— E quem viver, verá!


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Articulista/Colunista

Carlos Lobato

Jornalista, Sociólogo e Advogado


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