A FORÇA DA FOLHA DE PAPEL ALMAÇO SEM PAUTA
“A saudade é o azar
De quem teve muita sorte”
Iza Mara – Poetiza
Pode parecer esquisito, mas o ano inteiro cabe numa folha de papel. Papel almaço, é claro. E papel almaço sem pauta.
Só em folha de papel almaço sem pauta as letras se organizam em flamboyants. Com pauta, não. Com pauta o flamboyant não dá flor. A ausência de pauta, portanto, é o componente genético mais importante da folha de papel almaço.
Só o papel ao almaço sem pauta atrai, p.ex., a palavra de minissaia, o curso das águas ainda não molhadas e outro curso das águas ainda pouco apaixonadas. As cores menos azuis e também o blus, os nus, as cutículas das clavículas exaustas e as longarinas que teimam em me amanhecer de pé, os meus sujeitos ocultos e todos os vultos que se percebem em mim.
Não fosse o papel almaço sem pauta e, como num susto hemorrágico, eu deixaria de ser quem sou e quem não sou. Seria uma tragédia, não fosse em minha vida o papel almaço sem pauta, exatamente para me desanotar o ano inteiro.
Escapariam de mim as zagaias imprecisas e os miritis-gaiolas, o igarapé, as mulheres, o laguinho, os tamuatás e o açaí do grosso, um Gordini e uma Rural, a rua da casa da tia Onédia, a bola que no ar não dá, a peteca colombiana e todas as preciosidades que só o papel almaço sem pauta tem o poder de desguardar.
Do ponto de vista cínico, a folha de papel almaço sem pauta é um valor, um vapor desdenhando do trem. Uma lamparina acesa com o querosene do tempo e tudo que causa febre na cortina da sala vazia de nós.
No final, recomenda-se seja a folha de papel almaço sem pauta agasalhada em um frasco da cor de um hino bem peregrino para canoar anatomicamente nos telhados de uma casa de formigas.





